Caído do céu - Livro Contos de Guardião. EM BREVE!

Atualizado: 17 de Dez de 2020

Marcelino nasceu em pacata cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte, a vida parada não trazia novidades, em sua pequena propriedade ele produzia o necessário para sobrevivência e semanalmente vendia parte de sua produção na cidade.

Com cinquenta anos de idade gozava de boa saúde, casado com Conceição, mulher 20 anos mais jovem e pai de seis filhos, se considerava um homem feliz, amava a esposa e os filhos e gostava de passar horas esticado em sua rede, fazia o trabalho necessário e depois deleitava-se em longos cochilos.

Marcelino era querido por todos, homem de bem, sem vícios e contra violência, podia-se dizer que seu maior defeito era o comodismo que por vezes se equiparava a preguiça.

Em abril de 1940 a temporada de chuva foi abundante, e durante a tempestade o casebre humilde de Marcelino padeceu com a ventania que arrancou parte das telhas.

Passado o vendaval era o momento de colocar as mãos à obra e concertar os estragos, Marcelino e Conceição se levantaram mais cedo e se preparavam para o dia de lida, ela serviu o café, sentou-se ao lado do marido e perguntou:

— Homem, você não acha melhor chamar o Luizinho para arrumar esse telhado?

— Para que? Ele não vai fazer o trabalho de graça, não podemos gastar dinheiro!

— Marcelino, tu tome cuidado, to com mau pressentimento!

— Ahhh mulher! Pare com essas bobagens! Sempre arrumei esse telhado! São só algumas telhas soltas, vou subir e colocar tudo no lugar depois vou pra roça, amanhã é dia de vender na cidade!

Conceição conhecia bem o marido, sabia que não adiantava insistir, pois o homem era teimoso.

Alguns minutos depois as crianças se levantaram, Conceição serviu o café para os filhos, distribuiu as tarefas para que todos ficassem ocupados e não tivessem tempo para as travessuras infantis. Os mais novos foram para escola, e Camilo e Juliano, os mais velhos seguiram para a roça.

Os seis filhos eram boas crianças, quase não davam trabalho, com idade entre sete e dezessete anos, seguiam a rotina sem se preocupar com a vida na cidade, eram acostumados com a lida na lavoura e ajudavam o pai.

Do lado de fora do casebre, Marcelino improvisou uma escada e subiu, deu uma primeira olhada, contou quantas telhas faltavam e desceu.

Conceição, ansiosa e preocupada correu até o marido e perguntou:

— Já terminou?

— Nem comecei ainda! Preciso subir e colocar umas dez telhas que voaram com o vento!

— Homem de Deus! Tome cuidado! Olhe para essa escada que você inventou! Isso é um perigo!

— Ahhh Conceição! Já te falei que não tem perigo! Vou subir e você me joga as telhas!

Marcelino separou uma pilha de telhas, subiu novamente no telhado e agarrou peça por peça que a esposa lhe lançava.

Com as dez telhas empilhadas ao seu lado, ele gritou:

— Pode voltar pra suas coisas, eu termino aqui!

— Tá bão, mas tome cuidado!

— Tá bão! Tá bão! Você já me pediu isso! Vou tomar cuidado!

O corpo grande, desajeitado e com a barriga proeminente pesava sobre as vigas velhas, ele caminhava cautelosamente certificando-se de que era seguro.

Marcelino colocava as telhas enquanto ao seu lado, sem ser percebido, seu guardião observava.

Elói, um Exu Tata Caveira olhava para Marcelino e pensava:

— Marcelino, Marcelino, ficarei feliz com seu retorno para nosso plano! Confesso que não gosto de fazer isso, mas é necessário!

Completamente alheio ao guardião sentado a seu lado, Marcelino esticava-se para alcançar a última telha que faltava para terminar o serviço, quando tocou com a ponta dos dedos, a telha se movimentou e escorregou lentamente para baixo, irritado ele resmungou:

— Diacho! Até parece que tá viva!

Ele se deitou sobre o telhado, esticou o braço e quando estava quase alcançando, novamente ela deslizou mais alguns centímetros.

Marcelino sequer imaginava que ao seu lado Elói atuava sobre o campo eletromagnético da telha fazendo-a deslizar.

Ele se esticou o máximo que conseguiu, deu um impulso no corpo e quando aproximou a mão da telha sentiu o telhado dar um forte estalo, eram as vigas podres que se quebravam, antes que pudesse se movimentar para escapar do perigo, sentiu o telhado ceder e o corpo se precipitar na queda.

Conceição, que lavava a louça na cozinha, ao ouvir o estrondo deu um salto e virou-se para trás, quando olhou para o chão entrou em pânico e começou a gritar:

— Meu Deus! Acudam! Acudam!

O corpo de Marcelino estava coberto por telhas e pedaços de viga, rapidamente a mulher começou a retirar os escombros, e quando se deparou com o pescoço contorcido, deu um grito de pavor, completamente desesperada ela correu para porta, encheu os pulmões de ar e gritou:

— Camilo! Juliano! Filho, filho! Acuda! Seu pai caiu do telhado!

Ela voltou para junto do marido e percebeu que ele estava inconsciente, mas ainda respirava, desesperada e sem saber o que fazer, ela segurou a cabeça de Marcelino e virou, tentou arrumar o pescoço torto, o movimento foi fatal e colocou fim ao sofrimento do homem, Marcelino desencarnou.

Camilo e Juliano entraram na cozinha e viram a mãe debruçada sobre o corpo, imediatamente entraram em desespero, todos se jogaram sobre Marcelino e começaram a sacudir o corpo sem vida.

Conceição gritou:

— Corram até a casa de seu Ernesto, peçam ajuda! Precisamos levar seu pai pro hospital!

Juliano correu para a casa do vizinho.

Camilo examinou o corpo com atenção e teve certeza, seu pai estava morto.

Temendo aumentar o desespero de Conceição, ele segurou os ombros da mãe, acariciou o rosto e pediu:

— Mãe, me escute! Olhe para mim!

Conceição atendeu ao pedido do rapaz e estremeceu, no fundo já sabia o que o filho falaria.

Camilo olhou com carinho e falou:

— Ele está morto! Pelo jeito quebrou o pescoço!

Os dois se abraçaram e o desespero se espalhou pela casa.

Pouco tempo depois Juliano voltou com Ernesto, mas já era tarde demais, mais nada podia ser feito.

A notícia se espalhou rápido, todos gostavam de Marcelino e aos poucos os vizinhos foram chegando para ajudar Conceição.

No teto da casa via-se um grande buraco por onde o corpo de Marcelino atravessou, e sentado ao lado da abertura estava Elói, o guardião olhava o desenrolar dos fatos.

Enquanto assistia o desespero da família, outro guardião se aproximou e perguntou:

— Tudo certo?

— Sim! Tudo certo!

— E como foi?

— Como o planejado! Porfírio, meu amigo, você sabe como funciona, chegou a hora do desencarne nós precisamos ajudá-los a fazer a passagem, seja como for precisam voltar para o plano espiritual, aceitaram a condição antes de reencarnar e assinaram o contrato!

— Sim, sim! A tarefa não é fácil, mas é importante admitir, quando tudo acontece como o planejado fica mais fácil! E como está seu protegido? Vejo que a família está em completo desespero!

— Ele está bem, o corpo espiritual repousa na matéria, em breve farei o desligamento! A família já recebeu a visita dos amparadores, mas o desespero impede que ajuda seja efetiva, não conseguem sentir a presença de nossos irmãos! Mas eles estão atentos, vão e voltam a todo instante.

— E Marcelino vai para alguma zona umbralina?

—Já preparamos um lugarzinho bom para ele, só para ele expurgar uma coisinha ou outra! Sabe como é, ele não realizou grandes tarefas aqui na terra, mas foi um homem bom, cumpriu com seus propósitos, não precisa seguir para as zonas densas, ficará em uma região umbralina, mas protegido e por pouco tempo.

Os dois guardiões conversavam quando Otacílio, mentor de Marcelino chegou, o homem de cabelos brancos e simpático sorriu, sentou-se ao lado dos homens e perguntou para Elói:

— Como estão as coisas?

— Marcelino está bem, continua adormecido! A família esta desesperada, a esposa não para de chorar!

— Já esperava por isso!

— Otacílio, em breve farei o desligamento, posso fazer o procedimento ou quer que eu deixe a seus cuidados?

— Pode fazer o desligamento! E me diga, tudo aconteceu como planejado?

— Ahhh sim! Tudo certinho, sem dor e sem sofrimento! Quando ele caiu o susto foi tão grande que teve uma parada cardíaca e ficou inconsciente, somos mestres nessas tarefas!

— Fico satisfeito!

Elói sorriu com satisfação e concluiu:

— Otacílio meu amigo, melhor não podia ser! Até a providencial ajuda de Conceição veio na hora exata!

— Ela tentou concertar o pescoço quebrado de Marcelino?

— Sim! Exatamente como esperávamos! Na tentativa de ajudar ela terminou o serviço e já venceu mais uma de suas provas aqui na terra!

— Então tudo saiu como o planejado! Bem... Vejo que por aqui está tudo sobre controle, vou embora e volto mais tarde!

O mentor se levantou, despediu-se dos guardiões e deixou a cena.

Enquanto isso o padre chegava para ver o morto.

Na casa ouvia-se o burburinho, algumas vizinhas tentavam consolar Conceição enquanto outras arrumavam o corpo.

Do lado de fora os homens se reuniam para providenciar o caixão. Aluízio, um grande amigo de Marcelino, segurou o chapéu contra o peito e falou para Ernesto:

— Vou falar com coronel Setembrino, ele há de comprar um bom caixão, sempre gostou muito de Marcelino!

Ernesto balançou a cabeça concordando e lamentou:

— É muito triste! Todos gostavam do homem! Marcelino era querido por todos não é mesmo!

— Nem me diga! Homem assim não se acha fácil! Conto-te que um dia um bandido andou roubando umas cabeças de gado na fazenda de seu Setembrino, eu reuni alguns homens para sair à caça do ladrão safado, quando convidei Marcelino ele recusou e me deixou uma lição, disse que não podia tirar a vida de um ser vivo, que só Deus tinha esse direito!

— É Aluízio, homem como Marcelino não se acha tão fácil!

Enquanto os homens conversavam o padre entrou na casa, se aproximou e comovidamente perguntou para Conceição:

— Onde está o corpo de Calixto? Quero dar a extrema unção!

— Padre! Calixto é o vizinho! Meu marido é o Marcelino! Homem de Deus! Nem o nome dele o senhor sabe?

As vizinhas abanaram Conceição e pediram calma.

O velho padre enrubesceu, deu uma tossida para disfarçar e falou:

— Me disseram que era o Calixto que havia morrido!

— Não padre, não é o seu Calixto, é meu Marcelino que morreu! E como vai dar a extrema unção se ele já ta morto?

— Vou dar a extrema unção assim mesmo! Filha me deixe fazer meu trabalho!

— Tá bem padre! Tá bem! Marcelino tá no quarto! As mulheres já limparam o corpo e agora vão colocar o terno do casamento! Graças a Deus estão me ajudando com os preparativos!

O pároco foi até o quarto, abençoou o corpo e voltou para sala:

— Filha, o velório vai ser aqui mesmo?

— Sim padre, vai ser aqui mesmo! Ai padre, como vai ser agora? Não sei o que fazer sem Marcelino!

— Calma filha, calma! Deus providenciará tudo! Ele Sabe o que faz!

— Camilo e Juliano já são dois homens, mas ainda tenho os outros, o menorzinho ta com sete anos, precisa do pai por perto! Não sei o que fazer!

O desespero de Conceição era comovedor.

No início da tarde Aluízio retornou com o caixão e coroas de flores, tudo doado por Setembrino, o velho fazendeiro fez questão de pagar os gastos com o enterro.

Aluízio entrou na casa, tirou o chapéu e avisou a viúva:

— Dona Conceição, não precisa mais se preocupar com o caixão, o patrão pagou tudo! E olha, digo mais, ele comprou um caixão dos bons!

— Nossa homem! Não precisava de tanto! Marcelino não ligava pra luxo!

— Ele merece um bom enterro!

— É verdade!

O corpo de Marcelino já estava vestido com o terno apertado de vinte anos antes, e com a ajuda de Aluízio as mulheres acomodaram o defunto no caixão e arrumaram a sala para o velório.

Aos poucos a casa foi se enchendo de pessoas que vinham de todas as partes, Marcelino era muito conhecido, quando chegava à cidade para vender seus produtos sempre espalhava alegria, era brincalhão, gostava de contar piadas e todos riam com suas anedotas.

Enquanto as mulheres consolavam Conceição que não saia do lado do caixão, os homens bebiam o defunto.

Por volta das 20 horas, à pequena sala estava lotada de pessoas que queriam se despedir de Marcelino e dar os pêsames para a família.

Enquanto o povo se movimentava, Marcelino continuava adormecido dentro do corpo material.

Com o chegar da noite o guardião começou o desligamento, cuidadosamente cortava os fios que mantinham o corpo espiritual preso aos despojos carnais. Ele fazia a tarefa com extremo cuidado quando ouviu a voz de Otacílio:

— Elói, como está! Necessita de ajuda?

— Otacílio, meu amigo, aqui tudo em ordem, estou quase terminando o trabalho!

— Vejo que ele continua adormecido!

— Sim, sim! Assim que terminar o trabalho já acordo ele!

— Então, já que não necessita de ajuda, vou embora, mais tarde volto para ver como estão!

O mentor partiu e Elói continuou concentrado no trabalho.

Por volta das 22 horas um homem alto e forte se aproximou do caixão, rudemente bateu no peito do defunto e falou:

— Eita que ocê vai faze farta! Homem de Deus! O que é que tu tinhas que subir nesse telhado! Eita cabra teimoso!

Os tapas no peito de Marcelino sacudiram o corpo e ele despertou do sono profundo.

O guardião notou que os olhos de Marcelino começavam a se abrir, e rapidamente se apressou para desligar os últimos fios que mantinham os corpos unidos.

Livre do corpo físico, Marcelino se sentou no caixão, olhou para o lado e viu Elói sorrindo com grande alegria.

O guardião deu leves tapinhas no rosto de Marcelino e falou:

— Acorde homem! Acorde! Parece que ainda está dormindo!

— É verdade! Estou com sono! Deve de ser porque bati muito forte a cabeça!

— É mesmo! Você caiu igual fruta madura! E agora se sente bem?

— Um pouquinho de dor de cabeça!

— Isso logo passa!

Marcelino olhou ao redor e percebeu a sala lotada de pessoas, atordoado não conseguia perceber que estava dentro de um caixão, estranhando a movimentação ele perguntou:

— O que toda essa gente ta fazendo aqui?

— Bebendo o corpo!

— Eita! Bebendo o corpo de quem?

— É complicado para explicar! Mas sente-se aqui do meu lado, vou contar tudo!

O guardião apontou duas cadeiras acomodadas ao lado do caixão, se sentou e convidou Marcelino:

— Venha homem, sente aqui do meu lado!

Marcelino desceu do caixão, olhou assustado para a multidão que se despedia do defunto e coçou a cabeça, confuso e sem perceber que o velório era para ele, sentou-se ao lado de Elói e perguntou:

— E quem é o senhor? Por acaso é advogado? Com essa capa preta parece um daqueles juízes da cidade grande!

— Não sou advogado, mas em breve atuarei em sua defesa!

— Em minha defesa? Mas o que foi que eu fiz?

Ele aguardava a resposta de Elói quando Rita, uma velha amiga da família se aproximou e acomodou as largas ancas na cadeira em que ele estava sentado.

Marcelino, que ainda acreditava estar vivo e sentia tudo como se ainda estivesse no corpo físico, deu um gemido e sussurrou com sofrimento:

— Meu Deus! Que peso! A senhora não está vendo que a cadeira está ocupada? Está me esmagando!

A mulher sentiu um calafrio percorrer a coluna, mas continuou sentada, se remexeu, respirou fundo e relaxou soltando todo o peso.

Marcelino que já começava a sufocar com o peso da mulher, novamente reclamou:

— Alguém tire essa mulher de cima de mim! Ela vai me matar! Estou sufocando!

Elói se esforçou para conter a risada e perguntou:

— Como pode ela não te enxergar! É uma m* mesmo!

— Mas quem é essa mulher tão gorda? Mande-a sair!

— Você não lembra? É dona Rita! Ela fez o parto dos seus filhos!

— E eu tenho filho?

— Sim! Tem seis filhos!

— É verdade, tinha esquecido!

— Sua memória está fraca mesmo!

Marcelino falou gemendo:

— Mulher, será que além de cega está surda? Saia de cima de mim! Saia!

Ele falou com tanta raiva que a mulher sentiu outro calafrio percorrer a coluna, e tomada pelo incomodo se levantou.

Ele colocou a mão no peito tentando respirar, e estranhando ainda mais a situação perguntou:

— Como pode a pessoa sentar-se em cima do outro! Nossa senhora, o que aconteceu com dona Rita, ela não era tão gorda assim!

— Isso se chama obesidade mórbida, acontece quando a pessoa perde o controle e come além do necessário!

— Mas que diacho! Afinal de contas, o que está acontecendo aqui? O que esse povo tá bebendo?

— Estão bebendo cachaça! Pinga! Marafo! Qualquer m*!

— Cachaça? Mas não tenho cachaça em casa!

— Você não, mas teu vizinho Ernesto tem, não é você que vive falando que ele é um pé de cana?

— É verdade! E tão bebendo quem?

— Você!

— Eu? Como assim? Não to entendendo é nada!

— É verdade, você não está entendendo m* nenhuma mesmo!

— Nossa senhora! O senhor fala muito palavrão!

— Falo mesmo! Você não fala palavrão, eu sei! É quase um santo! Um menino bonzinho! Mas eu falo a m* que eu quiser! E daí? O problema é meu!

— Virgem santíssima! Quem é o senhor? Precisa falar assim?

— Um amigo de muito tempo! E já te disse, eu falo como quiser!

— Olha, não me lembro do senhor!

Marcelino bocejou e passou os dedos nos olhos para limpar as remelas, Elói deu uma risadinha contida e perguntou:

— O que você está fazendo? Tá limpando remela é?

— Sim, acabei de acordar! Deixe pelo menos eu me limpar homem!

O guardião coçou a cabeça, conteve a gargalhada e resmungou:

— Como pode isso? Até remela ele consegue criar!

Marcelino franziu a testa e perguntou:

— O que o senhor disse?

— Nada não! — Vou me apresentar! Ainda não te disse meu nome! Chamo-me Elói Vieira, mas pode me chamar de Tata Caveira!

— Eita! Mas que nome esquisito é esse?

— É meu nome de falange! Mas se preferir me chame de Elói!

— Mas de onde que eu te conheço? O senhor é advogado?

— Já te disse homem! Não sou advogado, mas depois que você caiu e bateu a cabeça comecei a atuar como seu defensor!

— Mas por quê?

— Pra te ajudar a ir para um lugarzinho melhor! E que seja uma passagem rapidinha para ser logo transferido para uma zona com vibrações mais elevadas!

— Como assim?

O guardião deu um sorriso e falou em tom de brincadeira:

— Não adianta te explicar! Marcelino tire as remelas do olho, você é muito remelento! Veja quanta remela!

Rapidamente Marcelino limpou os olhos, acreditando estar na carne ele continuava com as impressões do corpo físico.

Os dois conversavam sentados de frente para o caixão, a intensão do guardião era que seu protegido percebesse a verdade que estava diante de seus olhos, mas Marcelino não conseguia reconhecer o defunto e nem compreender que estava morto.

Elói tentava elucidar Marcelino, quando Raimundo, amigo de longa data se aproximou e encostou o quadril na cadeira, disfarçadamente ajeitou as calças, deu algumas tossidas e soltou a silenciosa e fétida flatulência que ele segurava a horas, o gás mal cheiroso se espalhou diante do nariz de Marcelino que rapidamente se levantou, olhou para Raimundo e reclamou:

— Raimundo seu cabra safado! Como tem coragem de peidar na minha cara!

Raimundo, que não podia ouvir os mortos, continuou olhando para o defunto e soltou outro gás.

Marcelino, irritado com a situação, falou em tom alterado:

— Mas que diacho! Estão cegos! Não percebem que estou sentado nessa cadeira?

Elói respondeu:

— Calma homem, calma! Vamos continuar nossa conversa! Nosso tempo está quase acabando, logo precisamos ir embora!

— Embora pra onde?

— Vou te explicar! Primeiro você vai pra um lugar, vou ser seu advogado para que esse lugar não seja muito ruim! Depois de um tempo você vai para outro lugar! Quando estiver bem e com forças vai pra outro lugar, e em seguida poderá trabalhar se quiser! Quem sabe até possa trabalhar comigo!

— Eita! Que tanto de lugar! E o senhor trabalha com o que mesmo?

— Trabalho em uma calunga, para que os defuntos, igual a esse que está atrás de você, tenham um enterro decente sem ataques de baderneiros, e depois cuido para que os túmulos não sejam atacados!

— O que é uma calunga?

— Um cemitério homem! Um cemitério!

— Então o senhor é coveiro?

— Não homem! Não sou coveiro! Sou um guardião do cemitério!

— Que trabalho estranho!

O guardião se esforçava para ajudar Marcelino a alcançar a lucides, mas ele continuava confuso e sem compreender o que acontecia.

Elói se levantou e disse:

— Marcelino, de uma olhada no seu corpo!

Ele atendeu ao pedido do guardião, percebeu que os braços e pernas estavam roxos e com estranhos hematomas esverdeados. Ele olhou assustado e falou:

— Nossa Senhora, preciso ir para um hospital! Estou sentindo muitas dores!

As dores, criadas pela mente de Marcelino, apareceram depois que ele viu os hematomas.

O guardião, aproveitando a oportunidade, falou:

— Se quiser conheço um hospital muito bom, tem os melhores médicos! Mas vai ter que me acompanhar e antes vai ter que dar uma passadinha em um lugar!

— E esse hospital é bom mesmo?

— O melhor! Com os melhores médicos e as melhores enfermeiras, todas muito bonitas! Você vai tomar sopinha e ser muito bem tratado!

— Estou com muita dor de cabeça, no pescoço, no corpo inteiro!

— Então vamos!

Quando Marcelino estava prestes a se render, três senhoras com véu preto no rosto entraram na sala, estranhando as mulheres, ele perguntou:

— E quem são essas mulheres?

— Carpideiras! — Agora vamos homem!

Marcelino continuou olhando, notou que as mulheres choravam e murmuravam em alto tom:

— Pobre Marcelino! Pobre Marcelino! Não tinha que morrer!

Ele arregalou os olhos, sentiu o coração disparar e quando começava a entrar em pânico sentiu Elói segurar em seu braço e falar:

— Marcelino, olhe para mim! Você não morreu! A morte não existe! Finalmente você vai entender o que está acontecendo!

— Por que elas falaram meu nome?

— Escute, você vai entender! Confie em mim! Feche os olhos!

Marcelino fechou os olhos e Elói o aproximou do caixão, deixando-o de frente para o próprio corpo falecido, o guardião falou:

— Abra os olhos!

Marcelino olhou para o próprio corpo e Elói gritou:

— Surpreeesaaa! Bem vindo meu amigo! Fico muito feliz que esteja em casa!

Marcelino continuou olhando e perguntou:

— Quem é esse aí? Por que ele está sendo velado na minha casa?

— Ai meu Deus! Você não entendeu né!

O guardião empurrou a cabeça de Marcelino para perto do rosto do defunto e disse:

— Veja mais de perto! Reconhece agora?

— É... Ele até que se parece comigo, mas é mais gordo!

— Tu não tá reconhecendo o defunto?

— Não, não consigo lembrar! Quem é ele?

— Pelo amor de Deus! Misericórdia homem! Será que tenho que falar? Olhe para você, depois pro defunto, e me diga o que concluiu!

Ele olhou, olhou, e olhou mais um pouco, após alguns instantes fez uma cara de espanto tapou a boca para conter o grito e falou:

— Meu Deus! Eu não sabia que tinha um irmão gêmeo!

Elói colocou a mão no rosto, tapou os olhos, balançou a cabeça, suspirou e implorou:

— Homem de Deus, não faça isso comigo! Não se faça de besta, tu és inteligente! Olhe de novo! Ou melhor! Olhe para aquela mulher no canto, aquela que não para de chorar!

Ele olhou e rapidamente respondeu:

— É Conceição! Mas porque ela ta chorando tanto?

— Vá até lá! Tente consolar sua esposa! Vá homem! Vá, vá, vá!

— Nossa Senhora! Não precisa falar assim! Eu vou!

Marcelino foi até a esposa, se ajoelhou na frente da mulher e falou:

— Ceição, calma mulher! To aqui!

Conceição continuou com o choro e entre prantos suplicava:

— Marcelino, Marcelino, porque tu me deixaste!

Tentando consolar a esposa, novamente ele falou:

— Mulher! Estou aqui! To do seu lado!

Elói se aproximou e disse:

— Sacode ela! Fala bem alto! Grita pra ver se ela te escuta!

Quando Marcelino colocou a mão nos ombros de Conceição, sentiu a mão atravessar a matéria, assustado deu um salto para trás e gritou:

— Que m*! O que tá acontecendo aqui?

Elói respondeu:

— Não fale palavrão! Você acabou de reclamar porque eu falei m*!

— O que tá acontecendo? Não consigo entender nada!

— Quem são aqueles homens ao lado do caixão?

— Meus amigos e vizinhos!

— Então homem! Eles estão te bebendo! Olhe pro caixão!

O guardião arrastou Marcelino para junto do caixão, empurrou a cabeça para perto do defunto e falou:

— Quem é esse? Percebe? É você homem de Deus!

— Não posso acreditar! Deve ter alguma coisa errada!

— O que tenho que fazer para você acreditar?

O guardião passou a mão no ar e no mesmo instante se formou uma tela mental, ele apontou e disse:

— Olhe, veja! É o momento em que você caiu desse telhado!

Marcelino assistiu a cena e gritou:

— Nossa senhora! Não acredito nisso!

— Pois acredite! Vou voltar a cena para que veja outra vez!

Ele voltou a cena e outra vez Marcelino assistiu a própria queda.

Elói explicou:

— Você morreu! Faz mais de 12 horas! Morte instantânea! Nem deu tempo de levar pro hospital! Agradeça Setembrino que providenciou o caixão e pagou tudo! Você vai ter um enterro decente, é graças a esse homem que você escapou de um caixão de papelão, pois ninguém da sua família sabe onde tu escondes as economias! Você nunca contou pra sua mulher que o colchão ta cheio de dinheiro!

— Pois é, eu precisava economizar!

— E pra que economizar tanto? Olhe teus meninos, se vestem com roupas rasgadas! Você foi um bom homem, mas escolheu viver uma vida de miséria só pra poder guardar dinheiro nesse colchão!

— Mas homem, eu precisava ter uma economia, e se as crianças ficassem doentes?

— Olhe a barriga dos seus meninos, estão cheios de vermes! Passavam necessidades! E agora me diga do que serviu tudo isso? Você morreu e ninguém sabe onde estão suas economias! É por isso que vou ter que te levar pra um lugar que não é muito bom!

— Pra onde? Pro inferno?

— Não é pro inferno, mas é um lugar onde terá tempo para pensar nessas coisas que fez, reconhecer e se arrepender com o coração!

— Não to entendendo! Não to entendendo! Não to entendendo! Sou muito novo pra morrer!

— Filho, me diga, você está acordado mesmo? Quer tirar mais remela? Não é possível! Como não consegue entender!

— Sou muito novo pra morrer!

— Não importa! Seu tempo se esgotou! Sua programação foi cumprida! O que você ia ficar fazendo nesse fim de mundo? Passar anos lavrando a terra ou dormindo na rede? Você criou seus filhos e fez o que tinha que fazer! Seus meninos estão grandes e logo vão ocupar seu lugar na roça! Alguns têm missões diferentes e vão embora, mas tudo na hora certa!

— Desculpe, não consigo entender e nem acreditar!

— Calma homem! Você tem tempo, logo vai entender tudo! — Marcelino, me ouça, você foi um bom homem, cometeu seus erros, mas era querido por todos, veja seu velório, todos falam bem de você, mas chegou a hora de ir embora, você não pode ficar aqui!

— Mas e Conceição? Quem vai ajudar ela?

— Ela vai ficar bem! Terá a ajuda que precisa! Deus prove tudo!

— Deus prove é?

— Sim, prove tudo! Diga-me uma coisa, você gosta de Ernesto, aquele seu vizinho?

— Gosto, ele é homem bom!

— Ele vai cuidar de Conceição, então não se preocupe!

— Mas não quero que ele fique cuidando da minha mulher! Ela é minha mulher! Minha!

O guardião abaixou a cabeça, passou a mão na testa e explicou:

— Cabra, aqui na terra sua vida acabou! Não tem mais o que fazer! Se ficar por aqui vai sofrer até enlouquecer, tem muitas coisas feias andando pelo plano astral da terra, coisas que você nem imagina! É melhor que venha comigo! Olhe Marcelino, vou te deixar um pouco sozinho para que reflita, mas depois volto para te levar!

— Me levar pra onde?

— Pra onde você merece ir!

— Eu mereço o céu! Sempre fui bom homem!

— Quer que eu coloque asas nas suas costas?

— Eu não sou anjo não! Mas não mereço o inferno!

— Cabra! Tu não vai pro inferno! Pra começo de tudo, me diga, como tu pensa que é o inferno?

— Eu acho que tem um diabo vermelho, o chão com lava e fogo soltando labaredas!

— Então esse é seu inferno, se quiser pode acessar esse inferno, ele está em sua mente! Mas o lugar para onde vou te levar é outro! Não é o céu, mas também não é o inferno, está cheio de gente por lá! Você tem que pensar nas m* que fez!

— E como é esse lugar?

— Nós chamamos de umbral, eu chamo de zona de expurgo! Um lugar especial para você pensar nas coisas que fez durante a vida, é uma oportunidade de perdoar as pessoas que sente mágoa, pedir perdão para aquelas que você acha ter prejudicado! Tá certo? E agradeça por ter completado sua missão na terra!

— Agradecer a quem? A você?

— Sim, nós apenas seguimos a programação! Temos o mandato de busca e apreensão! Chegou à hora nós vamos buscar e colocamos em prática aquilo que foi planejado pela espiritualidade superior! — Olhe Marcelino, vou te deixar por um tempo, mas só até descerem o caixão! Quando te enterrarem estarei lá, é meu território de trabalho e vou te buscar!

Elói desapareceu e Marcelino correu para junto de Conceição.

A mulher chorava, reclamava, praguejava e ele fazia de tudo para ela se acalmar, tentava abraçar, tocar a mão, limpar as lágrimas, mas não conseguia.

No decorrer da noite, Marcelino já não sabia mais o que fazer para ajudar a esposa, foi então que Ernesto se aproximou, o homem sentou-se ao lado de Conceição e falou:

— Calma mulher, calma!

— Ernesto! O que vai ser da nossa vida sem Marcelino?

Ele olhou nos olhos de Conceição, segurou na mão da mulher e falou:

— Eu vou te cuidar! Vou fazer de tudo para que nunca te falte nada! Prometo Conceição! Te juro!

Marcelino estalou os olhos e foi tomado pela raiva, inconformado com a situação começou a chutar Ernesto e gritar:

— Solte minha mulher! Solte! Ela é minha mulher! Seu cabra safado!

Ernesto, que não recebia a agressão no corpo físico, mas sentia no corpo espiritual, começou a se arrepiar, a cada chute de Marcelino ele dava um solavanco na cadeira.

Estranhando a situação ele se remexeu na cadeira, se ajeitou, olhou novamente para Conceição e alisou carinhosamente a cabeça da mulher.

Quando Marcelino viu os carinhos, novamente se enfureceu e atacou com mais força, completamente descontrolado dava chutes para todos os lados e xingava.

Com o corpo espiritual carregado de matéria densa, ele conseguia impactar o corpo energético de Ernesto que dava sinais de uma leve incorporação.

Percebendo que conseguia interferir no campo energético de Ernesto e causar profundo mal-estar, Marcelino agrediu com ainda mais força.