Faz de conta que é seu Zé - Livro Contos de Malandro

Atualizado: 17 de Dez de 2020

Faz de conta que é seu Zé.

No plano terreno, os jovens são mais suscetíveis a erros, e consequentemente a se perder na caminhada evolutiva.

Os trabalhos mediúnicos em centros Kardecistas, na maioria das vezes, se resumem em passes e elucidações, adotando uma postura mais ortodoxa, evitam o culto a imagens, incorporação com abordagem direta dos guias, e uso de substâncias para limpezas astrais. Essas restrições impedem que médiuns despreparados encontrem campo aberto para manifestar suas fraquezas, uma vez que, não podem abusar daquilo que não tem.

A Umbanda, Candomblé e Quimbanda, religiões que concedem mais liberdade para os trabalhos mediúnicos, por vezes se convertem em espaços onde médiuns despreparados manifestam seus próprios vícios e desejos. Sem o devido preparo, estudo e disciplina, desconhecem a magia dos elementos e julgam que os guias se excedem no consumo da bebida alcoólica e do tabaco.

Muitos jovens e iniciantes nos trabalhos mediúnicos, sem o mínimo conhecimento, comumente distorcem a realidade dos fatos e interpretam erroneamente aquilo que assistem, pensam que a entidade bebe a cerveja, a cachaça, o whisky ou o conhaque para alimentar o vício que teve durante a vida, ignoram completamente a magia que acontece durante o trabalho e a seriedade do guia, que tem como propósito o amparo ao próximo.

É muito comum assistir médiuns desequilibrados que bebem excessivamente, e em seguida colocam a culpa na entidade, dizendo descaradamente que o guia passou dos limites.

Alguns médiuns, após os trabalhos mediúnicos se sentem livres para fazer o que lhes dá vontade, crentes de que os guias se afastaram e não podem ver, aproveitam para “encher a cara” com o pretexto ardiloso e hipócrita de que é a entidade que está ao lado e pede um golinho.

Mal sabem que nada fica oculto, pois para todos chegará o momento de rever suas escolhas e atitudes.

Mediunidade é porta aberta e passagem para espíritos que se associam as escolhas, atitudes e consciência do médium, portanto, reflitam sobre seus comportamentos e logo saberão quem os acompanha.

Essa história verídica mostra justamente o que acontece em casos desse tipo, e antes de iniciar a narração quero deixar um alerta, esse tipo de ocorrência é bem mais comum do que a maioria pensa.

***

Cidade do Rio de Janeiro, início de 1980, Jóca e Luiz, dois jovens de 22 anos e amigos de infância, após ouvir boatos sobre uma casa de Umbanda, decidiram visitar a terreira para perguntar sobre o futuro e saber se ficariam ricos.

Sentados na frente de um Preto Velho que estava acompanhado pelos Guardiões dos rapazes, aguardavam ansiosos as revelações.

A entidade, após pitar seu cachimbo, calmamente explicou:

— Os fios tem missão de trabaio! Pode inté ser nessa casa mesmo, ou em outra, mas tem que trabaiá a mediunidade e ajuda o próximo!

Jóca, empolgado com a informação, perguntou:

— Então somos médiuns?

— Sim! E tem missão juntos! Mas fío, preste atenção no que esse véio vai falá, pra trabaiá com a espiritualidade precisa de ter uma vida certinha, tem que estudá e entende o que se passa em uma terreira! Todo mundo tem mediunidade, mas cada um com a sua! Pra fazê bom trabaio tem que entendê qual mediunidade o fío tem!

Os rapazes, entusiasmados com a faculdade mediúnica, logo se imaginaram girando no congá, um equívoco extremamente comum entre médiuns de terreira é pensar que toda manifestação mediúnica é de incorporação, ignoram os vários tipos de mediunidade e se engessam em uma única modalidade de trabalho.

Jóca e Luiz voltaram para casa com a mente cheia de fantasias, e na semana seguinte iniciaram o desenvolvimento e logo começaram a cambonar.

A casa, muito organizada e séria, deu todo amparo para o desenvolvimento dos jovens e os dois se empenhavam nas tarefas.

Alguns meses depois, com a mediunidade mais equilibrada, começaram os primeiros trabalhos com os guias espirituais. Jóca foi o primeiro a incorporar seu Exú, na gira seguinte Luiz deu passagem para o Caboclo, e em pouco tempo os rapazes recebiam várias entidades, trabalhavam com Preto Velho, Boiadeiro, Exús, Baiano, mas em nenhum momento um Malandro se apresentou para a tarefa.

A espiritualidade, conhecendo muito bem os médiuns, envia a entidade apenas quando o trabalhador está pronto, e no caso de Jóca e Luiz, o momento não era adequado, pois os jovens acreditavam que os Malandros eram beberrões e mulherengos que gostavam de farra.

Em janeiro de 1981, após um mês de recesso a terreira retomava o trabalho, Jóca e Luiz já não mostravam o mesmo entusiasmo do início e começaram a faltar nas giras.

Em março, com as festas de carnaval, os jovens se atiraram na farra, a Sapucaí tremia com a multidão em delírio, as ruas lotadas de turistas, pessoas embriagadas, mulheres com poucas roupas, homens em busca de sexo fácil, e milhares de desencarnados alucinados com os excessos e promiscuidade, e no meio da algazarra Jóca e Luiz se divertiam.

Na segunda noite de festa, entrava no sambódromo a escola mais aguardada, as pomposas fantasias, corpos desnudos e o som do batuque levava a plateia a loucura, era impossível contabilizar o número de desencarnados que se misturava aos encarnados.

Entre os sambistas que desfilavam com seus pandeiros na mão, chapeuzinho, calça branca e camiseta listrada, estavam Geraldo e Alcides, dois sambistas desencarnados fascinados pelas festas carnavalescas.

Completamente entorpecidos, os dois rodopiavam, cantavam, levantavam os braços em puro êxtase, e quando se aproximavam de algum encarnado embriagado, aproveitavam para se abastecer do ectoplasma encharcado de álcool.

Geraldo, um negro alto, robusto e com barriga proeminente de tanto beber, estava desencarnado há mais de 10 anos, trazia no abdômen os furos das balas.

Alcides, sujeito alto e excessivamente magro, desencarnou quase na mesma época, morreu de overdose e abuso de craque.

Os dois, apegados a matéria, se recusavam a deixar a terra, perambulavam entre os bares da cidade, sempre em busca de um copo vivo para matar a vontade de beber.

A escola encerrou a apresentação, e Alcides, que mal conseguia ficar em pé, perguntou para o parceiro:

— E aê cumpadre! Vamos dar uma voltinha pra ver se achamos um copo bom!

— Ziriguidum! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Demorô!

Os dois se misturaram na multidão procurando dois copos que lhes saciassem a sede, quando passaram em frente a um boteco lotado, avistaram Jóca e Luiz, os jovens estavam caídos sobre a mesa, completamente bêbados e inconscientes, era exatamente aquilo que Geraldo e Alcides queriam, sem perder tempo se aproximaram dos jovens e logo encostaram e grudaram como se fossem dois sanguessuga, conectados ao chacra umbilical dos jovens, absorviam o ectoplasma impregnado se substância alcoólica, pouco tempo depois estavam completamente bêbados.

Os rapazes, sentindo o mal-estar da vampirização, despertaram, e ainda sobre o efeito do álcool, se esforçavam para pensar.

Jóca, enrolando a língua e com movimentos descoordenados, levantou o braço e gritou:

— Ei! Ei! Garçom! Trás um aperitivo aqui pra mesa!

Luiz, que esfregava os olhos e se esforçava para sair da embriagues, perguntou:

— Cara! Que horas são? Já está quase amanhecendo!

— Pois é! Acabamos dormindo na mesa! Cara! Mas que festa maneira! Vamos forras o estomago porque tem mais um dia de farra!

Geraldo e Alcides, que continuavam grudados nos rapazes, novamente sentiam a vontade de molhar a garganta, e não demorou para que sugerissem uma cervejinha para acompanhar o aperitivo.

Os rapazes pediram uma rodada de cerveja e enquanto disfrutavam o aperitivo, a bebida geladinha e alimentavam os novos amigos invisíveis, falavam animadamente, os assuntos eram sempre os mesmos, sexo, mulheres, jogo do bicho, maneiras de ganhar dinheiro fácil e o planejamento da próxima festa.

Geraldo e Alcides aproveitavam a abundância e ouviam atentamente, os rapazes eram copos perfeitos, tinham os mesmos gostos e interesses, gostavam de sexo sem compromisso, de jogatina, de noitadas em farras e o mais importante, adoravam “encher a cara”.

Animados com o achado, os vampirizadores comemoravam, e Geraldo, que além do vício doentio, ainda tinha a mania impertinente de repetir sempre os mesmos bordões, foi o primeiro a sugerir:

— Ziriguidum! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Choooraaa cavaco! Esses daqui não podemos deixar escapar!

— É isso aiiiii! É isso aiiiii!

Enquanto Jóca e Luiz entornavam um copo de cerveja atrás do outro, falavam porcarias e exalavam álcool, os novos amigos compartilhavam a aura pesada, se embriagavam e concordavam com tudo.

Os jovens aproveitaram a festança, e quando voltaram para casa, além do desgaste orgânico levaram dois novos acompanhantes.

Iniciou-se uma nova semana e junto as obrigações diárias, os rapazes, que trabalhavam como entregadores em um escritório no centro da cidade, mal conseguiam esperar o fim do expediente para “molhar a garganta”, no final da tarde se encontravam e seguiam direto para o barzinho do Tito, sentavam-se e já iam pedindo uma geladinha pra matar a sede.

Ao lado Geraldo e Alcides estavam ansiosos para saciar a vício, o trabalho dos rapazes era um empecilho, eram horas de abstinência e responsabilidades, coisas que sempre detestaram.

Um mês depois, Jóca e Luiz mostravam grande irritação e fadiga, o trabalho parecia enfadonho e cansativo, constantemente chegavam atrasados, esqueciam de fazer as entregas ou faltavam no expediente, e não demorou para que conseguissem a tão desejada demissão.

Sentados no barzinho do Tito, os jovens bebericavam a cervejinha gelada e conversavam, instigado por Geraldo, Jóca falava:

— Dá nada meu! Vamos arrumar grana de outro jeito! Sempre tem um jeitinho né! O importante é garantir a geladinha no final do dia!

— Não sei cara! Preciso ajudar nas contas em casa, ou minha mãe me pega! A velha precisa de ajuda!

— Não esquenta! Vamos dar um jeito!

Ao lado, Geraldo e Alcides conversavam:

— Alcides, precisamos ajudar os moleques a arrumar grana! Sem grana não tem birita!

— É isso aiiiiii! É isso aiiiii!

— Não podemos desencostar, os moleques têm muito pra dar! Esses são bons! Gostam de farra e bebida, só precisam achar um jeitinho de conseguir grana!

— Vamos ajudar!

— Aeee! Aeee! É isso mesmo! Ziriguidum! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Isso mesmo! Chora cavaco!

Daquele dia em diante a situação dos rapazes entrou em decadência, guiados pelos vampirizadores, começaram a ganhar dinheiro com trambiques e tudo que conseguiam gastavam no barzinho do Tito ou nas farras de final de semana, bebiam até cair sobre a mesa.

Seis meses depois, os dois começaram a sentir os efeitos da bebida, cansados de ouvir as reclamações dos pais, sem dinheiro e a cada dia mais viciados, Luiz sugeriu:

— Jóca, to cansado meu! A gente anda direto na bebedeira, minha mãe não para de reclamar!

— É... a coisa não ta fácil mesmo!

— Estava pensando aqui, amanhã tem gira, vamos falar com o babalorixá e pedir pra voltar pra terreira!

Ao ouvir o comentário do rapaz, Geraldo foi o primeiro a se revoltar:

— Aeee! Aeee! Para com isso moleque! Tá doido? Malandragem de verdade é viver, não é ficar nessas coisas não!

Jóca recebeu a sugestão, mas crente de que era coisa de sua cabeça, por alguns segundos pensou em continuar com a vida louca, mas aceitou o convite de Luiz.

Geraldo e Alcides tentaram de todas as maneiras persuadir os rapazes, mas no dia seguinte os dois se encontraram na casa de Joaquim, o babalorixá da terreira.

Após muitas explicações, pedidos de desculpas e promessas de trabalhar com seriedade, conseguiram permissão para retornar à noite e trabalhar na gira de esquerda.

Os dois voltaram para casa, se preservaram, não beberam, fizeram dieta leve, tomaram seus banhos de ervas, e na hora certa foram para terreira uniformizados e prontos para o trabalho.

Geraldo e Alcides se revoltaram, mas continuaram ao lado de seus copos, não estavam dispostos a abandonar os meninos, e também foram para terreira.

Quando os rapazes entraram no congá, acompanhados pelos obsessores, os Exús da casa olharam como cães que avistam o gato. Um Exú Caveira, responsável pela proteção da terreira não perdeu tempo, se preparava para ir até os malandros pinguços, quando o guardião de Jóca intercedeu:

— Por favor! Deixe! É meu protegido, ele escolheu essa nova companhia!

— Amigo, sabe que podemos mandar esses dois pra um lugar bem longe daqui!

— Sim! Mas eles precisam aprender a lição! Escolheram andar com esses dois malandros marginais do astral, desde o carnaval vivem sobre a influência dos vampirizadores! Deixe que aprendam!

— Vou respeitar seu pedido, mas não quero esses dois fazendo bagunça na casa!

— Não se preocupe, o Exú do Luiz já esta avisado, vai me ajudar a cuidar desses malandros!

— Mas afinal, quem são esses sujeitos? São obsessores de outra vida?

— Não são obsessores de vidas passadas, se aproximaram por afinidade! Andei investigando, foram dois sambistas, viviam para a escola de samba, farras, mulheres e muita, mas muita bebedeira! Um morreu assassinado, o outro de overdose!

— É uma vergonha ver nossos médiuns acompanhados por espíritos tão atrasados!

— Concordo com o amigo, mas esse não é o primeiro caso, infelizmente acontece muito mais do que os médiuns pensam! Logo os trabalhos começam e quero ver o que esses sambistas vão fazer!

— Apenas peço que esteja atento ao que vão falar para os consulentes, não quero problemas!

— Vou cuidar, não se preocupe, não deixarei que prejudiquem os consulentes! Qualquer conselho estúpido já dou um jeitinho neles!

Os trabalhos começaram, os toques de esquerda reverberaram pela casa, a energia forte envolvia médiuns e consulentes, primeiro chamaram Exús, em seguida as Bombo-giras, e por último a falange de Zé Pilintra.

Quando começou os toques de Malandro, Jóca foi o primeiro a dar um pulinho, logo em seguida Luiz começou a se contorcer e logo saiu sambando.

Os guardiões dos rapazes olhavam de perto, estavam atentos a todos os movimentos dos marginais do astral.

Geraldo e Alcides percebiam os olhares dos Exús, no entanto, já estavam informados, sabiam que os guardiões não podiam fazer muita coisa, pois eles estavam trabalhando com a permissão dos médiuns, Jóca e Luiz deram passagem e eles aproveitaram a oportunidade para experimentar como era a incorporação direta.

No controle do corpo físico de Jóca, Geraldo girou, sambou, tirou o chapeuzinho e deu um show, sentia-se como se estivesse na escola de samba. Quando viu o cambono passar ao lado, não se fez de rogado e gritou:

— Aeee! Aeee! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Traz uma cervejinha das boas pra mim! E chora cavaco!

Marcelinho, um menino de 16 anos que trabalhava como cambono, achou estranho a maneira como a entidade se manifestava, mas se apressou e logo voltou com um copo de cerveja:

— Seu Zé! Trouxe sua cervejinha! O senhor quer mais alguma coisa?

— Um cigarrinho, e aproveita pra trazer um conhaquinho!

O menino saiu às pressas e pouco tempo depois serviu Geraldo, o falso Zé Pilintra:

— Seu Zé! Está aqui seu cigarro e seu conhaque! Quer mais alguma coisa?

— Que é isso moleque! Só isso? Me traga a garrafa!

— A garrafa?

— Sim! Choooraaa cavaco! E não vacila moleque! Traga minha garrafa!

O cambono olhou assustado, mas temendo o mal julgamento, atendeu o pedido do sambista e correu pegar a garrafa.

Enquanto Geraldo “enchia a cara” de conhaque, do outro lado do congá Alcides, virava o terceiro copo de cerveja, fumava um cigarro atrás do outro e ouvia a consulente reclamar:

— Seu Zé! Não sei o que faço com esse homem! Ele não me deixa em paz!

— É isso aiiiii! É isso aiiiii!

— Já falei com Exú, com Bombo-gira, mas não adiantou muito não!

— É isso aiiii, é isso aiiii!

— O senhor não tem um conselho, ou um despacho?

— Sei nãooo! Sei nãooo!

— O senhor só fala isso?

— É isso aiii! É isso aiiii!

A consulente, sentindo-se frustrada, logo desistiu da consulta e foi embora.

Enquanto os penetras usavam seus copos ambulantes para alimentar o próprio vício, vários médiuns trabalhavam com seus guias, e toda a espiritualidade estava de olho nos marginais, os Exús eram os mais incomodados, se seguravam para não saltar em cima dos enganadores, eram como policiais obrigados a assistir o bandido assaltar a vítima.

No final do trabalho, quando o babalorixá fez a oração de encerramento, Jóca e Luiz mal conseguiam ficar em pé, percebendo o estado de embriagues dos rapazes, ele pediu:

— Podem sair, mas Joca e Luiz ficam!

Quando todos os médiuns se afastaram, Joaquim, o babalorixá interrogou:

— O que é isso? Vocês estão bêbados?

Os rapazes mal conseguiram responder, estavam visivelmente bêbados, preocupado o babalorixá alertou:

— Se na próxima gira isso se repetir, vocês vão pra rua!

Jóca justificou:

— Não é nossa culpa! Foi seu Zé, ele que pediu a bebida!

— Não! Não! Não me venha com essa mentira! Isso é um absurdo, uma desculpa imunda! Uma entidade de luz jamais faria uma coisa dessas! Os Malandros são espíritos esclarecidos, não cedem a essas tendências, trabalham com a magia da bebida para ajudar médium e consulente! Nunca para sua própria satisfação! Vão para casa e pensem bem no que andam fazendo da vida!

Os rapazes foram para casa e atordoados pelo excesso de bebida e influência dos vampirizadores, logo esqueceram o conselho.

Na semana seguinte, lá estavam os rapazes, prontos para o trabalho, e como Zé Pilintra trabalha tanto na linha de direita como na esquerda, Geraldo e Alcides não perderam a oportunidade e novamente entraram no congá.

O guardião de Jóca, contendo a indignação, se aproximou e com cara de poucos amigos olhou para Geraldo e alertou:

— Vou deixar que fique, mas se aprontar vou te arrastar para a região mais escura do umbral!

— Aeee! Que é isso! Ziriguidum! Não to fazendo mal pro rapaz, somos amigos! Tu tá é com inveja porque ele te abandonou! Eu já sei, andei me informando, lá fora ta cheio de parceiros nossos, eles me contaram que se o médium da passagem vocês não podem fazer nada!

— Mas tudo tem limites! Não brinque!

— Ziriguidum! Ziriguidum! Dum-dum-dum! To fazendo nada! Só aproveitando a bebidinha!

— Mas que porcaria é essa de ziguiri...ziguir...dum- dum!

— Isso é conversa de sambista! Só quem é da área entende!

— Não me interessa! Avise seu amigo drogado, estamos de olho nos dois!

— E pensa que não sei! Até parecem uma matilha de cachorros prontos pra me pegar! Sai pra lá!

O guardião se afastou, e pouco depois os trabalhos começaram. O Exú olhava se lamentava pela situação triste, nada podia fazer para evitar a incorporação, seu protegido se alegrava ao sentir a vibração compatível do quiumba e dava passagem com satisfação.

Naquela noite, o babalorixá manteve a atenção sobre Luiz e Jóca, e quando percebeu que os rapazes estavam com os supostos Malandros, ele decidiu averiguar, se aproximou de Jóca e cumprimentou:

— Salve seu Zé! É uma alegria recebê-lo nos trabalhos da nossa casa!

— Salve! Salve!

— Vejo que o cambono já trouxe tudo, precisa de mais alguma coisa?

— Se tiver um whisky eu aceito!

— Não temos! Sinto muito! — Seu Zé, como já deve saber, é tradição que o guia faça seu ponto riscado, vou pegar uma pemba para o senhor!

O babalorixá saiu, avisou o cambono para não dar mais nenhuma bebida para Jóca e Luiz, e rapidamente levou a pemba:

— Seu Zé, está aqui, a pemba!

Ele entregou a pemba para o quiumba, e Geraldo não soube o que fazer, disfarçou, bebeu mais alguns goles, contou uma conversa fiada e quando percebeu que o babalorixá não desistiria, ele se abaixou e fez um desenho esquisito, dentro do círculo rabiscou uma garrafa, um copo, um cigarro e algo que o babalorixá não conseguiu descobrir o que era.

Certo de que aquele espírito era um invasor, o babalorixá agradeceu e se afastou, posicionado em um canto do congá, ele entrou em profunda concentração e com a ajuda de seus guias conseguiu ativar a clarividência tempo o suficiente para ver os espíritos que trabalhavam com Jóca e Luiz.

No final dos trabalhos dispensou os médiuns e pediu para os rapazes:

— Vocês dois fiquem, quero falar algo importante! — Filhos, hoje conversei com os malandros de vocês!

Jóca respondeu com animação:

— Pois é pai! Estou muito animado com meu guia, a Rosangela me disse que viu ele, até me descreveu como ele é, disse que é um rapaz alto, bem jovem e forte, um sujeito bonitão!

— Filho, não sei o que a Rosangela viu, mas estou convencido do que ví, e tenha certeza de que não estou enganado! Você está trabalhando com um quiumba!

— Um quiumba? Claro que não! Seu Zé não é quiumba! Isso é preconceito!

— Filho, aquele sujeito não é um malandro, não é seu Zé, é um espírito em completo estado de deterioração, aparência bizarra e deformada, tem um buraco no peito, é um quiumba!

— Se fosse um quiumba meu Exú tinha levado!

— Nem sempre é assim! Exú é um espírito da lei, ele só protege quem anda na lei! Se vocês estão aprontando tenha certeza de que seu Exú se afastou faz tempo!

— Ele não deixaria um quiumba me incorporar!

— Se for para seu crescimento e aprendizado ele vai deixar sim! São vocês quem escolhem a companhia que trazem ao lado! Se quer andar com Exú, então se esforce para andar na linha e ter o merecimento, caso contrário, ele deixará que sofra para aprender através da dor! Menino, você precisa estudar!

— O senhor está é louco! Com inveja! São poucos os médiuns que trabalham com seu Zé, estão com ciúmes!

— Filho, não quero teu mal, estou alertando! Tomem cuidado! Sinto muito, mas depois do que presenciei hoje, não posso permitir que continuem na casa, terei que pedir para que não voltem.

— O senhor está mandando a gente embora?

— Sim! Tenho um compromisso com os outros médiuns, com a consulência, e com a espiritualidade, não posso fechar os olhos e fingir que não ví um quiumba do seu lado — E você Luiz, saiba que também está com um quiumba, é um rapaz miúdo, pálido, magro feito um palito, parece doente ou drogado!

Luiz arregalou os olhos, ao contrário de Jóca, ele acreditava nas palavras do babalorixá, abaixou a cabeça pensativo e ouviu.

O babalorixá deu o último conselho:

— Se querem mesmo trabalhar com a espiritualidade, vão para casa, reflitam sobre seus atos, depois voltem para passar em consulta com os Exús e peçam ajuda!

Jóca respondeu em tom irritado:

— Não vou passar em consulta com outro médium!

— Jóca, essa é a única coisa que posso fazer! Para retomar os trabalhos tem que se livrar desses desequilibrados! Agora vão para casa!

Os rapazes voltaram para casa e retomaram a vida, Luiz, por vezes lembrava os conselhos de Joaquim, mas as sugestões de Alcides e revolta do amigo Jóca, eram convincentes e ele logo esquecia.

Com muita dificuldade conseguiram outro trabalho como office-boy, mas quando se aproximava o horário do almoço, a vontade de beber era insuportável, as entregas pelo centro da cidade era uma facilidade a mais, pois estavam o tempo todo passando em frente de barzinhos, e motivados pelos amigos pinguços cediam a tentação e paravam para um golinho.

Seis meses após a última gira, os rapazes se encontraram na hora do almoço, enquanto comiam um pastel e viraram o copo de cerveja, Luiz perguntou:

— Jóca, o que acha de procurarmos trabalho em outra terreira?

— Outra terreira? Pô cara! Não sei não! Sinto seu Zé comigo o tempo todo, confio no meu amigo e protetor, até ouço ele me chamando para uma cervejinha! As vezes acho bobagem ir pra terreira!

— Eu também sinto seu Zé do meu lado! Ontem a tarde saí para uma entrega no meio daquele calor insuportável, quando passei na frente de um barzinho ele me pediu uma cervejinha! Cara! Não aguentei e sentei para tomar uma!

— Então Luiz! Eles estão ao nosso lado! Joaquim endoidou! Tá velho e não sabe o que fala!

— Mas, lembra o que o Preto Velho falou? Nossa missão era de ajudar o próximo, pra fazer isso temos que ir pra terreira! Já até sei onde tem uma! Vamos?

— Tá bom cara! Então vamos nessa!

Geraldo e Alcides já nem se importavam com as ameaça das terreiras, confiavam no domínio que exerciam sobre os rapazes, e sabiam que durante a gira poderiam bebericar a vontade, bastava chamar o cambono certo, de preferência os mais jovens e pouco conhecimento, pois esse serviam todas as bebidas e não perguntavam nada!

Algumas semanas depois os dois se apresentaram para o trabalho em outra casa, Betina, a mãe de santo, parecendo um tanto desconfiada, fez várias perguntas e aceitou os novos médiuns, no entanto, fez questão de ficar ao lado dos rapazes durante a realização dos primeiros trabalhos.

Na primeira gira, quando tocou para Zé Pilintra, Luiz e Jóca saíram rodopiando e sambando pelo congá, Betina ficou de olho, deixou as entidades a vontade e apenas observou.

Pouco tempo depois, Geraldo, incorporado em Jóca, abordou o cambono e pediu uma cervejinha e um cigarro, e Alcides, que estava grudado em Luiz, pediu uma garrafa de cerveja e uma carteira de cigarro.

Betina se aproximou de Geraldo e humildemente cumprimentou:

— Boa noite! Como devo chamar o senhor?

— Aeeee! Chora cavaco! Pode me chamar de Zé Pilintra!

— Só Zé Pilintra?

— Sim! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Malandro que é malandro não chora!

Ela olhou com desconfiança, deu um sorriso e notou a aproximação de Alcides, o rapaz vinha em sua direção caminhando com molejo, segurando o chapeuzinho fez um reverência e se curvou falando:

— Aiiiiii, da pra me trazer mais uma geladinha?

— E o senhor? Como se chama?

— Zé Pilintra!

— Os dois se chamam Zé Pilintra?

— Sim! Sou Zé Pilintra também! Por quê?

— Pensei que fosse Zé das almas, dos baianos, ou...

Geraldo, notando a desconfiança da mulher, interrompeu em tom debochado:

— Filha! Basta de curiosidade, somos Zé Pilintra e pronto! Estamos aqui pra trabalhar, dar bons conselhos!

Betina, ainda mais desconfiada, sem rodeios entregou a pemba e pediu:

— Poderia fazer seu ponto riscado? São regras da casa!

Geraldo, que já havia passado pela mesma situação, não se fez de rogado, pegou a pemba e riscou o círculo com um tridente, uma garrafa, um copo, um cigarro e falou:

— Taaa aeeee! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Chooora cavaco! É nóis na área!

Betina deu um sorriso disfarçado, agradeceu e ficou de olho, enquanto isso Geraldo e Alcides faziam a festa, bebiam tudo que tinha na casa e no final do trabalho os médiuns mal conseguiam ficar em pé.

Betina estava quase certa de que os rapazes estavam mal acompanhado, mas para dar oportunidade, deixou que trabalhassem em mais uma gira, e novamente o mesmo se repetiu, os quiumbas faziam a festa e os médiuns se emocionavam acreditando estar com Zé Pilintra.

No final do trabalho, Betina chamou:

— Luiz, Jóca, quero falar com vocês, esperem um pouquinho por favor!

Ela se despediu dos outros médiuns, fechou a porta da terreira e foi até os rapazes:

— Filhos, acompanhei os trabalhos dos dois durante as duas giras! Vocês sabem que estão com a mediunidade em desequilíbrio?

Jóca se apressou para responder:

— O que? A senhora está dizendo que somos mistificadores?

— Não! Não falei isso!

— Isso é uma acusação?

— Não! Mas se quer saber, vocês não tem guia nenhum! Estão é trabalhando com quiumbas!

— A senhora é uma louca!

— Queria muito ajudá-los, mas agora entendo por que andam com esses baderneiros! Saiam da minha casa e não voltem mais! Já me basta os problemas que tenho com os outros médiuns!

Jóca saiu batendo o pé, e atrás dele Gerando cantarolava:

— Vai, vai, vai! Vâmo é tomar uma geladinha! Vai, vai, vai! Chora cavaquinho!

Novamente os rapazes eram dispensados dos trabalhos mediúnicos, os guardiões estavam sempre de olho, não se aproximavam dos rapazes, pois os dois estavam sobre o domínio dos marginais, mas acompanhavam o caso, sempre na esperança de que Luiz ou Jóca percebessem que andavam acompanhados por quiumbas. Sempre que possível os guardiões e outros guias intuíam parentes, amigos ou colegas para que os rapazes recebessem conselhos e assim abrissem os olhos, mas nada adiantava, a cada dia que passava eles se entregavam mais ao controle dos sambistas do além.

Jóca e Luiz trabalharam em várias terreiras, e a história se repetia, alguém sempre desconfiava das estranhas entidades, diante da bebedeira, do palavreado chulo e da falta de seriedade dos intrusos, os rapazes eram dispensados e sempre saiam revoltados e achando-se injustiçados.

Anos se passaram, com 35 anos a vida de Jóca e Luiz ia de mal a pior, eles não conseguiam emprego, viviam as custas dos pais e irmãos, não tinham namoradas, pois os quiumbas tratavam de manter as moças afastadas, não queriam distrações e nem correr o risco de perder o copo, para manter o vício os rapazes faziam alguns bicos e dia após dias se atiravam a degradação.

No dia que Jóca completou 36 anos, os rapazes compartilhavam uma cerveja para comemorar a data, os rostos tristes em nada lembrava os jovens de anos antes.

Luiz deu um sorriso forçado e comentou:

— Jóca! Amigão! Parabéns cara! Queria te dar um presente, mas a coisa tá feia!

— Pois é! E faz tempo que a coisa anda feia! Sabe Luiz, não ando me sentindo bem, mal consigo comer, o tempo todo uma vontade de vomitar, sinto o estômago embrulhado! Cara, acho que to doente!

— Irmão, temos que parar com essas bebedeiras! Já passamos do limite! Eu também não me sinto bem, cada vez que tomamos um porre quase morro de dor no fígado!

Geraldo e Alcides ouviam atentamente, o assunto não agradava, sem a bebedeira os rapazes não tinham serventia, e para garantir que a ideia se dispersasse, Geraldo sussurrou no ouvido de Jóca:

— Aeee! Ziriguidum! Dum-dum-dum! Chora cavaco! Pede mais uma geladinha pra nóis!

Jóca deu uma risadinha e comentou:

— Seu Zé ta aqui do meu lado pedindo mais uma geladinha! Vamos beber mais uma?

— Não cara! Não aguento mais não! Mal consegui beber essa cerveja que pedimos! Se quiser peça que te faço companhia!

— Também não quero! Seu Zé que me perdoe, mas hoje não consigo beber, e para ser sincero, não sei se vou beber outra vez!

Cansados e adoentados, os dois foram embora e passaram alguns dias longe das bebedeiras, mas Geraldo e Alcides não estavam dispostos a desistir facilmente, ficavam dia e noite atormentando os pensamentos dos rapazes, e não demorou para que Jóca fosse atrás de Luiz:

— Aê! Vamos beber uma geladinha?

— Não sei não! Comecei a me sentir melhor depois que paramos com a bebedeira!

Assediado por Geraldo, Jóca insistiu:

— Pô cara! Só uma! Ninguém vai morrer por causa de uma geladinha né!

Luiz deixou-se convencer e pouco tempo depois os rapazes entornavam uma cerveja atrás da outra, beberam até cair sobre a mesa do boteco.

Novamente foram enredados pela influência dos vampirizadores.

No início de 2000, Jóca e Luiz estavam completamente acabados, com pouco mais de quarenta anos eram dois solteirões fracassados e doentes.

O carnaval se aproximava e Geraldo fazia a cabeça de Jóca para que o rapaz se preparasse para a festança.

Jóca, que já não aguentava mais a vida triste e arruinada, foi atrás do amigo:

— Luiz, ta a fim de sair um pouco?

— Cara! Não quero não! Faz dias que não consigo comer, não aguento mais essa dor no fígado!

— Eu também to assim! Não posso comer que tenho que sair correndo vomitar!

— Jóca, chega dessa vida! Cara, não dá mais!

Geraldo, que ouvia com impaciência, bateu com a mão na perna e falou para Alcides:

— Mas que m*! Lá vem esses dois com esse assunto de novo!

— É isso aiii! Os caras estão bolados!

— Jóca agora deu para bebere suco! Pode uma porcaria dessas?

— Éééé! Ferrou! Não vão querer ir pro carnaval!

— Sabe de uma coisa! Par mim já deu! Esses daí não prestam mais!

— É isso aiiii! Não prestam mais!

— Alcides, vamos deixar esses dois, vamos embora! Que se danem! Logo achamos outros copos!

Enquanto Jóca e Luiz lamentavam, Geraldo e Alcides se afastavam, era a primeira vez em quase vinte anos que os quiumbas deixavam os rapazes.

Doentes e sem dinheiro para pagar médicos e tratamento, em pouco tempo o estado de saúde dos rapazes se agravou.

Jóca, não conseguia se alimentar, o vomito escuro, quase preto lhe custava dores terríveis, Luiz seguia pelo mesmo caminho, após anos de constantes bebedeiras os dois estavam com cirrose hepática e sem condições financeiras para bancar o tratamento, atormentados pelas dores os rapazes se arrastavam até o posto de saúde mais próximo, onde passavam horas aguardando atendimento...CONTINUA

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